Sexta-feira, 16 de Janeiro de 2009

"Encosta-te a mim"

"Tudo o que eu vi
Estou a partilhar contigo
E o que não vivi um dia hei-de inventar contigo.
Sei que não sei, às vezes entender o teu olhar
mas quero-te bem. Encosta-te a mim..."
"Encosta-te a mim", Jorge Palma


Madrugada fora, os festejos de duas décadas de vida foram o pretexto perfeito para sabemos tão bem que estaremos eternamente encostados um ao outro - hoje (como sempre), a sorrir devagarinho, encosta-te a mim.



[O tempo para escrever não é muito, mas o aniversário de um irmão é sempre um bom motivo. Com alguns imperdoáveis dias de atraso, ficam os meus votos de um óptimo ano e que os blogs continuem a fazer parte das nossas vidas. Bons posts, feliz 2009!]


Sábado, 20 de Dezembro de 2008

Enquanto se abraçavam, tiveram a certeza de que o mundo inteiro cabia de repente na ternura de um abraço, daquele abraço. E perderam-se para sempre naquele olhar, onde descobriram que o amor que os une é a única salvação, a única religião, a única pergunta, a única resposta, a única essência, o único caminho, o único refúgio, a única verdade, a única e mais certa certeza - o princípio e o fim, o ponto onde tudo começa e termina.


São os afectos a resistir a tudo. A tudo.

Feliz Natal.



Domingo, 19 de Outubro de 2008

Tudo o que temos cá dentro

"Dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos."

"Ensaio sobre a cegueira", José Saramago


Às vezes, não sei o que tenho cá dentro.
Às vezes, não sei o que sou.


Domingo, 28 de Setembro de 2008

"Sei de cor cada lugar teu
atado em mim, a cada lugar meu.
Tento entender o rumo que a vida nos faz tomar,
tento esquecer a mágoa,
guardar só o que é bom de guardar.


Pensa em mim, protege o que eu te dou.
Eu penso em ti e dou-te o que de melhor eu sou,
Sem ter defesas que me façam falhar,
Nesse lugar mais dentro
Onde só chega quem não tem medo de naufragar.

Fica em mim que hoje o tempo dói,
Como se arrancassem tudo o que já foi.
E até o que virá e até o que eu sonhei
Diz-me que vais guardar e abraçar.

A noite vem às vezes tão perdida
E quase nada parece bater certo.
Ha qualquer coisa em nós inquieta e ferida
E tudo o que era fundo fica perto.

Nem sempre o chão da alma é seguro,
Nem sempre o tempo cura qualquer dor,
E o sabor a fim do mar que vem do escuro
É tanta vezes o que resta do calor.

Se um gesto cair assim,
Despedaçado,
Se eu não souber
Recolher a dor,
Se te esperar a céu aberto,
Onde se enconde
O que tu és que eu também sou,
É que hoje, mais que qualquer outra noite,
Ha qualquer coisa que me fere
E que me faz querer tanto ter-te aqui.

Nalgum lugar perdido, vou procurar sempre por ti.
Ha sempre no escuro um brilho, um luar…
Nalgum lugar esquecido, eu vou esperar sempre por ti,

Mesmo que a vida mude os nossos sentidos,
E o mundo nos leve pra longe de nós,
E que um dia o tempo pareça perdido
E tudo se desfaça num gesto sóm
Eu vou guardar cada lugar teu
Ancorado em cada lugar meu.
E hoje apenas isso me faz acreditar
Que eu vou chegar contigo
Onde só chega quem nao tem medo de naufragar."


Cada lugar teu, Mafalda Veiga



Se as lágrimas não me tivessem atraiçoado,
Se a dor da despedida não tivesse sido maior do que eu,
Se as palavras não tivessem fugido quando mais precisava delas,
Era isto que queria ter sido capaz de vos dizer.

Muda a cidade, o tempo, a casa e a vida, mas o amor será sempre o lugar onde nos refugiaremos para fugir à distância, à saudade e ao arrastar das horas e dos dias.

Mãe, Pai e Irmão.

Três pessoas.

A minha família.

O meu mundo.

A minha vida.



Terça-feira, 23 de Setembro de 2008

“(…) Sabes qual é o erro que cometemos sempre? Acreditar que a vida é imutável, que, mal escolhemos um carril, temos de o seguir até ao fim.

Contudo, o destino tem muito mais imaginação do que nós… Precisamente quando se pensa que se está num beco sem saída, quando se atinge o cúmulo do desespero, com a velocidade de uma rajada de vento tudo muda, tudo se transforma, e de um momento para o outro damos por nós a viver uma nova vida.

Se, esteja onde estiver, arranjar maneira de te ver, só ficarei triste, como fico triste sempre que vejo uma vida desperdiçada, uma vida em que o caminho do amor não conseguiu cumprir-se.

Tem cuidado contigo. Sempre que à medida que fores crescendo, tiveres vontade de converter as coisas erradas em certas, lembra-te que a primeira revolução a fazer é dentro de nós próprios, a primeira e a mais importante. Lutar por uma ideia sem se ter uma ideia de si próprio é uma das coisas mais perigosas que se pode fazer.

Quando te sentires perdida, confusa, pensa nas árvores, lembra-te da forma como crescem. Lembra-te que uma árvore com muita ramagem e poucas raízes é derrubada à primeira rajada de vento, e que a linfa custa a correr numa árvore com muitas raízes e pouca ramagem. As raízes e os ramos devem crescer de igual modo, deves estar nas coisas e estar sobre as coisas, só assim poderás dar sombra e abrigo, só assim, na estação apropriada, poderás cobrir-te de flores e de frutos.

E quando à tua frente se abrirem muitas estradas e não souberes a que hás-de escolher, não te metas por uma ao acaso, senta-te e espera. Respira com a mesma profundidade confiante com que respiraste no dia em que vieste ao mundo, e sem deixares que nada te distraia, espera e volta a esperar. Fica quieta, em silêncio, e ouve o teu coração. Quando ele te falar, levanta-te, e vai onde ele te levar (…)”


"Vai Aonde Te Leva o Coração", Susana Tamaro


Trocar
O certo pelo incerto,
A segurança pelo medo,
O conhecido pelo desconhecido,
O aconchego do lar por uma solidão insuportavelmente dolorosa,
A vida que sempre foi nossa por outra que nunca nos pertenceu.
É este o desafio dos próximos tempos.

A escrita e a vida (ou o que resta dela) seguem dentro de momentos.

Até já.

Sábado, 23 de Agosto de 2008

Um dia, o
Dois
e o
Três
juntaram-se para formar o dia 23 e a família passou a ter
Quatro
elementos porque, quando faltavam
Cinco
minutos para as
Seis
da tarde, a família, cujo apelido lido ao contrário é
Sete
, celebrava a chegada de uma bebé, no mês
Oito
, do ano que resultou da junção do
Nove
e do zero. O tempo passou e a miúda depressa chegou aos
Dez aninhos. A primeira capícua surgiu aos
Onze
anos, quando soaram as
Doze
badaladas que separam os dias 22 e 23 de Agosto. Os
Treze
anos não tardaram e, passado pouco tempo, chegaram os
Catorze
. Como nestas coisas da idade não se pode saltitar, os
Quinze
anos chegaram antes dos
Dezasseis
. E depois dos

Dezassete
, chega agora a altura de comemorar os
Dezoito anos.


A todos aqueles que me ajudaram, ajudam e ajudarão a construir a minha história, fica o meu beijinho de gratidão.


18 anos – “Hoje é o primeiro dia do resto da minha vida…”


ghd

Sexta-feira, 1 de Agosto de 2008

E a senhora que se segue é...

Medicina.


(Depois de um mês de ausência, estou de volta. Passo nos vossos cantinhos brevemente.
Beijinhos a todos e boas férias)


mvmb

Terça-feira, 1 de Julho de 2008

"Escreve. Seja uma carta, um diário ou umas notas enquanto falas ao telefone, mas escreve. Procura desnudar a tua alma por escrito, ainda que ninguém leia; ou, o que é pior, que alguém acabe lendo o que não querias. O simples acto de escrever ajuda-nos a organizar o pensamento e a ver com mais clareza o que nos rodeia. Um papel e uma caneta fazem milagres, curam dores, consolidam sonhos, levam e trazem a esperança perdida. As palavras têm poder."

Paulo Coelho, in "Maktub"



Por variadíssimas razões, o tempo , a inspiração e a vontade de escrever têm faltado nos últimos tempos. Escrevam por mim. Ler-vos-ei sempre que me for possível.


Segunda-feira, 16 de Junho de 2008

Célula, tecido, órgão, sistema, organismo.

Quark, Protão, Electrão, Neutrão, Molécula.

0 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20

A B C D E F G H I J K L M N O P Q R S T U V W X Y Z

Mercúrio, Vénus , Terra, Marte, Júpiter, Saturno, Urano, Neptuno.

Chegar, ver e vencer.

Boa sorte a todos os meninos e meninas que iniciam amanhã os exames.

(Esta é a minha estranha maneira de dizer que estou convosco. Organizem-se e aventurem-se. Mesmo que não saibam o caminho, sigam em frente. Passo a passo, rumo ao sucesso)

Quinta-feira, 5 de Junho de 2008

O sentido da vida

Como é que se explica o tacto?
Como é que explicas as mãos, as tuas mãos?

Mãos que tocam, que sentem, que aquecem, que arrefecem.
Mãos que agridem, que acariciam, que constroem, que destroem.
Mãos que tocam a vida.


Como é que se explica o olfacto?
Como é que explicas o nariz, o teu nariz?

Nariz que respira o ar que inspiras longamente e expiras subtilmente. O ar que voa por ti adentro. O ar que suporta a vida.
Nariz que capta o cheiro da terra molhada, do lume crepitante, dos lugares especiais, dos objectos de sempre.
Nariz que cheira a vida.



Como é que se explica a audição?
Como é que explicas o ouvido, o teu ouvido?

Ouvidos que tremem ao som de barulhos ensurdecedores.
Ouvidos que se recusam a ouvir palavras que te gelam o sangue
Ouvidos que encolhem para se tornarem cúmplices de um segredo timidamente sussurrado.
Ouvidos que ecutam o som da vida.



Como é que se explica o paladar?
Como é que explicas a língua, a tua língua?

Língua que te traz os sabores. Doce. Amargo. Salgado. Acre. Insonso. Ácido. Azedo.
Língua que te permite provar, comer, saborear, apreciar, devorar.
Língua que dá gosto à tua vida.


Como é que se explica a visão?
Como é que explicas os olhos, os teus olhos?

Olhos que vêem o mundo, que falam, que riem, que choram, que questionam, que ferem, que apaixonam.
Olhos onde se misturam todas as cores e que têm um brilho estranho, especial, misterioso, indefinido.
Olhos que te mostram a vida.


Como é que se explica a vida?
Como é que te explicas?

Vida que tacteias num escuro de incertezas.
Vida que cheiras a cada nova aventura.
Vida que escutas porque cada nota entra na música. Na tua música.
Vida que saboreias sempre. Ora doce, ora amarga, ora suave, ora intensa, mas sempre a vida.
Vida que olhas de frente. Porque, se olhares para o lado, a vida passa por ti e nem dás por ela.


Tu não te explicas.
A vida não se explica.
Tu és.
A vida vive-se. A cada instante. Porque cada segundo é uma vida.


(Só hoje a escrita fez sentido. Fica o pedido de desculpas por tão prolongada ausência.)

Terça-feira, 20 de Maio de 2008

Tudo o que eu te dou

Hoje senti-te.

Senti dor porque te doeu viver. Feriu-me a tua dor, o teu desespero, a tua indiferença.

Senti medo porque tu fugiste dos problemas, hipotecaste a felicidade, perdeste o equilíbrio. Porque te perdeste.

Senti frio porque te estás a destruir. Sem te aperceberes. Sem dares conta. Sem quereres ver.

E à medida que te destróis, vais-me matando a mim.
Porque uma parte de mim és tu.
Porque eu sou uma parte de ti.

É assim a amizade.
Uma fusão de duas almas que passam a ser uma só.
Uma ausência presente.

Hoje senti-te.
Tentei dar-te a mão.
Recusaste ajuda.
Porque eu não te quero ajudar.
Porque eu sou tua amiga.

E sabes que mais?
Tu até tens razão.
Eu sou tua amiga.

Talvez não seja muito.
Talvez tu queiras mais.
Talvez tu mereças mais.
Talvez tu precises de mais.
Mas para mim é tudo.
Amizade é tudo.
Tudo o que eu te dou.


NOTA:
“Tudo o que eu te dou” é o nome de uma música de Pedro Abrunhosa e é também a minha resposta ao desafio lançado pela Paddy, pela Lia e pela Paulinha que consistia em escrever uma memória em 6 palavras.

Talvez a frase não corresponda àquilo que se pedia, mas foi o que quis e consegui escrever.
Porque sempre fui tudo o que dei.
Porque sou tudo o que eu dou.
Tudo o que eu te dou.

(Para responder a este desafio, nomeio todos aqueles cujos nomes dos blogs figuram na minha lista e, ainda, os que por aqui passem e achem que escrever uma memória em 6 palavras poderá revelar-se interessante.)




Sexta-feira, 9 de Maio de 2008

Doçura amarga

Tu, que és feita de um tudo sem nada ou de um nada com tudo.

Tu, que és um começo sem fim ou um fim que não teve começo.

Tu, que és de uma antipatia simpática ou de uma simpatia antipática.

Tu, que choras como quem ri e ri como quem chora.

Tu, que és de uma doçura amarga, sempre imprevisível e surpreendente.

Tu, que um dia tiveste de aprender a rir-te de ti. Porque o espelho às vezes faz-te sentir tão insignificante. Porque não és nada.

Tu, que vives rodeada de palavras que te gritam silenciosamente ao ouvido.

Tu, que és de um sarcasmo subtil, apurado, requintado, que aparece disfarçado na entoação da voz quase imperceptível.

Tu, que tentas agarrar-te à realidade com todas as forças, mas te perdes às vezes num mar de sonhos que te cheiram a aventura.

Tu, que só acreditas no que vês, ouves, tocas e sentes.

Tu, que não queres opiniões, mitos ou crenças. Queres, precisas, exiges factos. Concretos. Inegáveis. Racionais.

Tu, que não queres ser feliz. Nunca quiseste. Só queres ser alguém.

Tu, que apanhaste um dia o comboio da vida e percorres viagens sempre à espera do dia (daquele dia) em que serás livre. Livre para viver. Livre para ir. Livre para ser.

E sabes o que é mais incrível?
Gosto mesmo de ti.
Porque és assim.
És, mas não és.
Estás, mas não estás.
Pareces, mas não pareces.
Com o tempo, aprendi
a apreciar as tuas qualidades
e a tolerar os teus defeitos.
Hoje,
não sou feliz por ti,
não estou feliz por ti:
sou incrivelmente feliz contigo.

Nós,
eu e tu,
sabemos
o que queremos
o que somos.
Trocamos segredos
em sorrisos subtis,
em palavras ditas na cumplicidade de um olhar.
Sentimo-nos no brilhozinho dos olhos que tem todos os dias uma cor diferente,
lemo-nos nas entrelinhas das palavras que ficam por dizer,
escutamo-nos nos silêncios consentidos,
tocamo-nos na distância da saudade.

Nós,
eu e tu,
sabemos
o que queremos
o que somos.
Trocamos segredos
em sorrisos subtis,
em palavras ditas na cumplicidade de um olhar.

Nós,
eu e tu,
sabemos
o que queremos
o que somos.

Nós,
eu e tu.

Nós.

(Texto dedicado a uma menina da blogosfera que hoje faz anos.
Um doce para quem conseguir adivinhar o nome da aniversariante).




Sexta-feira, 2 de Maio de 2008

saudade

(Meus amores, tenho andado muito atarefada, sem tempo para escrever. Prometo voltar ao mundo dos blogs nos próximos dias. Por enquanto, deixo-vos com um texto escrito há uns tempos.)


Saudade.

Queres saber o que é?
Dá-me a tua mão.
Fecha os olhos.
Respira fundo.
Chiu! Não digas nada.
Não tenhas medo.
Eu estou aqui contigo.
Pelas asas da imaginação, vamos voar até à Saudade…


Chegou a noite da tristeza.
Estás a ver o céu negro? Hoje não tem lua da esperança.
É enorme!
Não sei onde ele começa. E tu? Sabes onde começa o céu?
Não sei onde termina. E tu? Sabes onde termina o céu?

E se eu te contasse um segredo?
Tu és aquele céu,
feito de tudo e de nada,
sem princípio nem fim.

De repente, começam a surgir estrelas.
Consegues ver?
Primeiro uma,
depois outra,
olha mais uma!
Repara bem:
umas são maiores,
outras mais pequenas;
umas brilham tanto,
outras são mais tímidas.

Sabes o que são aquelas estrelas?
Não sabes?
Vou dizer-to baixinho, porque mais ninguém pode saber:
são pedacinhos de saudade - inevitavelmente presentes,
mas eternamente inalcançáveis.

Às vezes, as estrelas são tantas
que o céu não chega para as abrigar.
Nessa altura, começa a cair chuva
que é feita das tuas lágrimas.
E entre gotas de tristeza e nostalgia,
a saudade vai-se diluindo.

São estas estrelas que te iluminam a noite,
até que o dia surja e a tristeza dê lugar à alegria.
São estas estrelas que se embrulham no
brilho da ternura e são feitas de saudade.


Saudade de uma pessoa que partiu sem aviso
e levou uma parte do teu coração.
Saudade de uma infância irremediavelmente perdida,
onde tudo era feito de alegria, verdade e sonhos.
Saudade de um aroma único e irrepetível que se perdeu no tempo,
mas perdura na tua memória.
Saudade de um sabor que tu não sabes dizer
se era doce ou amargo,
intenso ou suave,
porque te sabia à ternura de alguém tão querido.
Saudade de um beijo doce,
de um abraço quente,
de um sorriso límpido,
de uma voz inconfundível,
de um olhar sincero.
Saudade de uma vida que já foi tua
e te escapou das mãos sem tu saberes como.
Saudade de um passado que ainda não passou.


Saudade.


Domingo, 27 de Abril de 2008

Quando era pequena, achava que tu nunca irias morrer.
Se eu precisava de ti, como é que era possível
que desaparecesses de um momento para o outro?
Era feliz nas certezas dos meus cinco anos.

Cresci contigo e tu envelheceste comigo.
Enquanto eu perdia a inocência e me tornava menina,
tu ganhavas cabelos brancos e vias as tuas rugas sulcarem-se no rosto.

Gostava de ti.
Ainda gosto.
Mas agora, com 17 anos, gosto de maneira diferente.

Quando era pequena, admirava-te.
Sentia o meu coração acelerar
e encher-se de orgulho
só de dizer “A minha avó.”


Nunca te confessei,
mas tu tens o rosto mais bonito que alguma vez vi.

Eram as rugas que me fascinavam.
Gostava de ficar a olhar-te dutante muito tempo
e tentava imaginar de que eram feitas as tuas rugas:
algumas eram desgostos de amor,
outras tinham sido causadas pelas travessuras dos filhos e
ainda havia aquelas que apareciam quando não sabias que marca de iogurtes havias de comprar .


Não sabias ralhar.
Mesmo quando eu fazia algum disparate,
tu nunca conseguiste repreender-me ou castigar-me.
A tua ternura não deixava.


Também nunca te disse, mas a tua sopa sempre foi a minha preferida.
Não é que não gostasse das outras, mas a tua era a tua.
Sabia a ti,
ao teu amor,
à tua vida.


E que dizer das histórias e das músicas?
Eu gostava
dos livros,
dos carros,
dos peluches
e das bonecas,
mas eles eram chatos e nunca falavam!

Preferia conversar contigo,
ouvir as tuas histórias
e escutar as músicas que tu inventavas só para mim.


Gostava do teu colinho.
Era quente e aconchegante.
Sentia-me segura quando me aninhava junto a ti.


Como esquecer os teus beijos?
Sabiam bem e tinham um som diferente dos outros.

E não eram uns beijos quaisquer – tinham poder curativo!
Tu nunca precisaste da caixinha dos medicamentos.
O amor que vinha nos teus beijos era suficiente para acalmar a dor.

Rapidamente as lágrimas se transformavam em sorrisos
e eu voltava a sentir-me em condições de partir para uma nova brincadeira.


Fascinavam-me as tuas mãos.
Sempre tão ágeis e macias.
Saltitavam de tarefa em tarefa
e nunca paravam quietas ao longo do dia
que parecia ter mais de 24 horas.


O tempo passou.
Eu descobri da pior maneira
que a morte nos leva a todos e não quer saber quem é que faz falta,
que a mentira existe e é muitas vezes mais forte que a verdade,
que o mundo é muito diferente daquele que povoava a minha imaginação.


A tua sopa continua a ser a melhor,
mas já não a fazes.
As tuas mãos continuam a ser macias,
mas já passam muito tempo quietas no teu colo.
O teu rosto continua a ser o mais bonito,
mas tem espelhada uma tristeza que já não passa.


Queria no mais fundo de mim dar-te um bocadinho da minha vida.
Por cada ano que eu vivesse a menos, tu vivias um dia a mais.

E quando o tempo se esgotasse,
havíamos de partir as duas de mãos dadas para um mundo
onde o tempo não passasse
e onde a morte não conseguisse entrar.

Já perguentei a muita gente se isto se podia fazer.
Dizem eles que não.
Lamentam muito,
mas a vida é o valor supremo
e esse tipo de transferências não é permitido por lei.

Eu sei que eles não lamentam.
Talvez eles não tenham uma avó como tu.
Talvez eles não saibam o quão doloroso
é ver morrer aos pouquinhos alguém que amamos.

A verdade é que eles não deixam e
(tu sabes)
eu nunca fui menina para desobedecer.

Não pode mesmo ser, avó.
Eles lamentam.
A lei não deixa.

Mas, olha, quando sentires que o fim está próximo, chama-me.
Eu chegarei junto de ti a tempo de me despedir.
E mesmo que me sinta que tudo se desmoronou à minha volta,
E mesmo que sinta que estou prestes a perder uma parte de mim,
E mesmo que as lágrimas não me deixem falar,
E mesmo que eu não consiga dizer o quanto te amo,
Tu hás-de ser capaz de ler nos meus olhos todo o amor que sinto.
Todo o amor que sinto por ti.
O amor que aprendi contigo porque foste tu
Porque foste tu
Porque foste também tu
que me ensinaste a amar.
A amar.
Um amor
Só meu,
Só teu.
Só nosso.
Puro.
Eterno.
Simples.
Verdadeiro.

Este é o meu presente para ti.
O único que te posso dar.
Parabéns, avó.

Sexta-feira, 25 de Abril de 2008

1 - Falar;
2 - Gritar;
3 - Discordar;
4 - Concordar;
5 - Protestar;
6 - Votar;
7 - Escrever;
8 - Ler;
9 - Contar;
10 - Aprender;
11 - Errar;
12 - Sussurrar;
13 - Escolher;
14 - Olhar;
15 - Ouvir;
16 - Sorrir;
17 - Chorar;
18 - Sentir;
19 - Beijar;
20 - Abraçar;
21 - Amar;
22 - Escolher;
23 - Existir;
24 - Ser;
25 - Viver;


És livre.

Ninguém te anula como pessoa.
Ninguém determina o que tu és.
Ninguém te diz o que deves
ser,
dizer,
ouvir,
sentir,
escrever.
Ninguém te proíbe de viver.

És livre.


25 de Abril.
Hoje e sempre.

Filhos da Liberdade

Sobre esta página escrevo
teu nome que no peito trago escrito
laranja verde limão
amargo e doce o teu nome.

Sobre esta página escrevo
o teu nome de muitos nomes feito água e fogo lenha vento
primavera pátria exílio.

Teu nome onde exilado habito e canto mais do que nome: navio
onde já fui marinheiro
naufragado no teu nome.

Sobre esta página escrevo o teu nome: tempestade.
E mais do que nome: sangue. Amor e morte. Navio.

Esta chama ateada no meu peito
por quem morro por quem vivo este nome rosa e cardo
por quem livre sou cativo.

Sobre esta página escrevo o
teu nome: liberdade.

"Liberdade",
Manuel Alegre

Terça-feira, 15 de Abril de 2008

Entrou.
Fechou a porta.
Trancou-se à chave.
Aproximou-se de mansinho.
Pé ante pé, sem fazer barulho.

Abriu os olhos.
O espelho reflectia a sua imagem.
Pela primeira vez em muito tempo viu
Os olhos tristes,
As olheiras indisfarçáveis,
A pele sem brilho,
Os lábios secos.

Olhou à volta.
Entre frascos,
caixas,
cremes,
pefumes e
escovas de dentes,
estava a tesoura.

Agarrou-a,
Apertou-a,
Prendeu-a.

Encostou a lâmina à pele.
Roçou.
Repetiu o gesto com mais força.
O sangue começou a correr.

Bateram à porta.

“Está aí alguém?”

O sangue continuou a correr.
Olhou-o,
Cheiro-o,
Provou-o,
Sentiu-o.

“Abre! Que estás a fazer?
Estás a ouvir? Destranca a porta!”

O sangue continuou a correr.
Cheirava a vida,
Tinha um sabor doce
E era de um vermelho quente e macio.

“Estás-me a deixar preocupada.
Abre a porta! Vamos conversar!”

Conversar? Agora?
Depois de a ter ignorado durante anos?
Depois de ter fingido que ela não existia?
Depois de a ter abandonado como se ela não fosse nada?
Conversar? Agora?

“Vá, abre lá!”

E o sangue corria…
Entre leucócitos,
hemácias,
plaquetas
e plasma,
ia perdendo
mágoas,
lágrimas,
desilusões
e tristezas.
E o sangue corria...

“Abre! Estás aí?”

E o sangue corria…
Sentiu-se perder as forças.

Foi então que se lembrou da música da infância.
Ainda sabes como era?
Eu sei que tu te lembras. Faz um esforço.

Eu cá tenho um amigo que é mais do que um irmão.
Mora numa concha velha, sua cama fez no chão...

E o sangue corria…

“Estou a perder a paciência!”

...sua mãe é uma fada e seu pai um caracol.
Faça chuva ou faça sol, não paramos de brincar...

E o sangue corria…
À sua volta, a mancha vermelha ia-se expandindo.
E o sangue corria…

...cavalo, cavalinho, cavalinho do mar,
quero brincar contigo, ensina-me a nadar.

De repente perdeu-se tudo.
A cabeça começou a rodar.
Os olhos foram-se fechando progressivamente.
As pernas perderam as forças.

Apagou,
Esqueceu.
Seria aquilo a morte?

Ao longe,
Muito ao longe.
Baixinho,
Tão baixinho,
Consegui escutar ainda

Abre a porta!
Abre a porta!
Abre a porta!
Abre a porta!



(NOTA: À semelhança doutros textos publicados neste blog, este não é autobiográfico.)


bb

Segunda-feira, 7 de Abril de 2008

Quanto medes?



"O homem é do tamanho do seu sonho."
"O homem é do tamanho do seu sonho."
"O homem é do tamanho do seu sonho."
"O homem é do tamanho do seu sonho."
"O homem é do tamanho do seu sonho."


Fernando Pessoa



Sexta-feira, 4 de Abril de 2008

A um amigo tão improvável quanto especial, que se tem revelado um livro aberto:

O Mundo é uma livraria,
Cada país é uma estante
E todos nós somos livros.

livros bons e maus.
pessoas boas e más.

livros que compramos só porque gostamos
do título,
da capa,
da imagem,
do nome do autor.

pessoas que julgamos apenas pela aparência,
sem nos preocuparmos com aquilo que elas são por dentro.

livros aparentemente velhos e desinteressantes, mas que se revelam uma agradável surpresa.
pessoas com as quais nunca nos identificámos, até que um dia percebemos que afinal elas têm tanto para nos dar.

livros de tantos tipos:
ensaios,
romances,
banda desenhada,
de estudo,
de aventura,
de poesia.
pessoas tão diferentes:
extrovertidas,
introvertidas,
especiais,
banais,
ousadas,
tímidas.

livros tão importantes para nós, que não somos capazes de passar muito tempo sem ler um pedacinho desse livro.
pessoas que, ao longo da vida, nos marcam para sempre por terem preenchido páginas do nosso coração.

Eu escrevo,
tu escreves,
nós escrevemos,
a cada segundo,
a cada minuto,
a cada hora,
a cada dia
uma página do
meu,
do teu,
do nosso
livro da vida.

Um dia, o livro termina e fecha-se para sempre.

Nessa altura percebemos que a capa pode ser interessante,
mas é no conteúdo que se revela a essência do texto.

Nessa altura percebemos que a vida só vale a pena quando somos capazes de dar um bocadinho do nosso livro aos outros.
Basta uma letra,
uma palavra,
uma frase,
um parágrafo,
uma página,
um capítulo
escrito por mim,
por ti,
por nós
para que
o livro que era só meu
passe a ser também teu
e seja para sempre nosso.

Nessa altura percebemos que a vida só vale a pena
quando as letras são desenhadas com amor,
quando as palavras são escritas com doçura,
quando as frases se tecem com confiança,
quando os parágrafos se constroem com amor,
quando as páginas são feitas de liberdade,
quando os capítulos são inventados com ternura,
quando os livros se chamam amizade.

Quarta-feira, 2 de Abril de 2008

Sim ou não?

Dia ou noite?
Quente ou frio?
Luz ou sombra?
Sorriso ou lágrima?
Palavras ou silêncio?

Vens ou vais?
Entras ou sais?
Chegas ou partes?
Começas ou acabas?

Tudo ou nada?
Muito ou pouco?
Princípio ou fim?
Passado ou futuro?
Verdade ou mentira?

Estás ou não estás?
Gostas ou não gostas?
Queres ou não queres?

Tu ou eu?
Eu ou tu?

És ou não és?
Sou ou não sou?