Como é que se explica o tacto?
Como é que explicas as mãos, as tuas mãos?
Mãos que tocam, que sentem, que aquecem, que arrefecem.
Mãos que agridem, que acariciam, que constroem, que destroem.
Mãos que tocam a vida.
Como é que se explica o olfacto?
Como é que explicas o nariz, o teu nariz?
Nariz que respira o ar que inspiras longamente e expiras subtilmente. O ar que voa por ti adentro. O ar que suporta a vida.
Nariz que capta o cheiro da terra molhada, do lume crepitante, dos lugares especiais, dos objectos de sempre.
Nariz que cheira a vida.
Como é que se explica a audição?
Como é que explicas o ouvido, o teu ouvido?
Ouvidos que tremem ao som de barulhos ensurdecedores.
Ouvidos que se recusam a ouvir palavras que te gelam o sangue
Ouvidos que encolhem para se tornarem cúmplices de um segredo timidamente sussurrado.
Ouvidos que ecutam o som da vida.
Como é que se explica o paladar?
Como é que explicas a língua, a tua língua?
Língua que te traz os sabores. Doce. Amargo. Salgado. Acre. Insonso. Ácido. Azedo.
Língua que te permite provar, comer, saborear, apreciar, devorar.
Língua que dá gosto à tua vida.
Como é que se explica a visão?
Como é que explicas os olhos, os teus olhos?
Olhos que vêem o mundo, que falam, que riem, que choram, que questionam, que ferem, que apaixonam.
Olhos onde se misturam todas as cores e que têm um brilho estranho, especial, misterioso, indefinido.
Olhos que te mostram a vida.
Como é que se explica a vida?
Como é que te explicas?
Vida que tacteias num escuro de incertezas.
Vida que cheiras a cada nova aventura.
Vida que escutas porque cada nota entra na música. Na tua música.
Vida que saboreias sempre. Ora doce, ora amarga, ora suave, ora intensa, mas sempre a vida.
Vida que olhas de frente. Porque, se olhares para o lado, a vida passa por ti e nem dás por ela.
Tu não te explicas.
A vida não se explica.
Tu és.
A vida vive-se. A cada instante. Porque cada segundo é uma vida.
(Só hoje a escrita fez sentido. Fica o pedido de desculpas por tão prolongada ausência.)